Jocasta e Wendy: a dinâmica das mães superprotetoras


É natural que os pais se sintam apreensivos diante da independência dos filhos. Entretanto, quando a ideia do afastamento é intolerável, negando a necessidade do filho de exercer outros papéis que demandem autonomia e emancipação, ocorre uma disfunção, fruto da ligação simbiótica entre pais e filhos.

Embora os homens também apresentem este fenômeno, ele é mais observado em mulheres, originando termos como “Complexo de Jocasta”, que abrange a simbiose e os comportamentos superprotetores de determinadas mães em relação aos seus filhos. Outro termo usado para retratar mães superprotetoras é o Complexo de Wendy, inspirado na história de Peter Pan, a eterna criança zelada por Wendy, que renuncia sua própria vida para se dedicar ao garoto.

A satisfação destas mães se dá quase que exclusivamente através de seus filhos, os quais procuram proteger e suprir integralmente, defendendo-os quando cometem atos impróprios e se esforçando ao extremo em prol do prazer deles. Tais mães não costumam delegar tarefas aos filhos, fazem tudo sozinhas e se empenham em não causar frustração a eles – se certificando de que possuam tudo o que desejam. Caso o filho estabeleça uma relação amorosa, o parceiro competirá com o forte vínculo entre mãe e filho, uma vez que os benefícios que a mãe oferece são mais sedutores do que os oferecidos por qualquer outra pessoa.

A necessidade de se fusionar com os filhos decorre do desejo de ser amada, condição muitas vezes não encontrada no cônjuge e, assim, depositada neles. Há a expectativa de que a criança represente a felicidade, na qual a mãe possa se identificar e ali amar a si mesma. Isso tudo deve ser compreendido como um sintoma familiar, pois o excesso de mãe denota a falta de pai. Inseguras e com medo da rejeição, superprotegem e satisfazem os filhos com o intuito inconsciente de serem imprescindíveis, garantindo que não serão abandonadas, sendo sempre aceitas e amadas por alguém.

O zelo materno é necessário e saudável, porém se mal dosado compromete a imagem que a criança constrói de si, se percebendo incapaz ou esperando que todos lhe satisfaçam, uma vez que se manteve em uma bolha segura provedora de prazer. Filhos de mães superprotetoras se tornam adultos infantilizados, presunçosos e narcisistas, não desenvolvem noções de responsabilidade e têm dificuldades de serem empáticos.

Os pais necessitam exercer papéis na vida profissional, amorosa, familiar e social. Dessa forma, também possibilitam que os filhos circulem por esses universos. Impulsionado e autorizado a ir para o mundo, o jovem se experimenta aos poucos, adquirindo competências para construir a própria trajetória sem se sentir em dívida com uma mãe que se sacrificou por ele.

A mãe suficientemente boa é acessível em caso de necessidade, mas também se revela dispensável, permitindo que a criança desenvolva habilidades para a resolução de problemas, aspecto essencial para um adulto autônomo. É uma mãe que não se sente menos importante ao passo que o filho adquire autonomia, sendo capaz de valorizar a independência da criança, capacitando-a e fortalecendo sua autoconfiança.

Marciane Sossmeier
Psicóloga – CRP 07/25069
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