Soledade Sitiada


Estive em Porto Alegre quinta-feira, 16/02, na Audiência Pública sobre os pedágios no RS. Durante o evento os diretores a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) apresentaram o projeto da volta dos pedágios. Embora o projeto contemple as rodovias BR-101/290/386/448 no RS e em SC, vou falar sobre o nosso foco de interesse, que é a BR386, em especial a região de Soledade.

Bem, começando pelo começo, os diretores da ANTT não vieram dialogar sobre o projeto e colher opiniões e ideias, eles vieram apresentar um projeto que está pronto, que foi decidido dentro de escritórios e gabinetes políticos sem a consulta da sociedade, autoridades locais ou mesmo a Polícia Rodoviária Federal, que sabia tanto quanto eu sobre este edital, que já tem até data para o início das concessões de exploração. Portanto, logo de cara percebe-se a forma autoritária, insensível e incompetente como pensaram um retorno de pedágios sem ouvir as comunidades envolvidas, sem consultar a população que será a mais afetada por isso.

Outro fato que chama atenção: serão 30 anos de pedágios. 30 anos de via pública interrompida, de extorsão do cidadão, de empresas de transportes, de indústrias. Se o modelo anterior de pedágios, que não duplicou sequer um quilômetro de rodovias, durou 15 anos, desta vez dobraram a receita. 30 anos de exploração comercial privada de estradas públicas.

Tivemos em Soledade um forte movimento pela duplicação da BR386. De Porto Alegre a Lajeado essa obra se concretizou durante o governo Lula, realizada com recursos públicos, ajudando o desenvolvimento da região sem onerar ainda mais o contribuinte. Infelizmente a duplicação ainda não chegou a Soledade, e é esse o argumento dos pedagistas: a duplicação. Oba eba, opa pera! A duplicação da BR386, segundo este projeto, só vai se iniciar após 12 anos de cobranças de pedágios. Quer dizer, começando os pedágios em 2018, a duplicação só vai iniciar em 2030! Isso se não for adiada, o que é bastante possível, já que em Gravataí estão prorrogando por mais 2 anos a concessão de um pedágio que terminaria no meio deste ano.

Há quem concorde com os pedágios, diz que há até quem goste, citando exemplos de outros estados, como Santa Catarina, onde o pedágio custa R$2,30, ou a região de Erechim, onde o pedágio da EGR (Empresa Gaúcha de Rodovias, pública) cobra R$3,60 em somente um sentido. Pois bem, aqui no Alto da Serra do Botucaraí serão duas praças, uma em Mormaço, cobrando R$7,60, e outra em Fontoura Xavier, no valor de R$8,40 (na BR386 ainda haverá pedágio em Fazenda Vilanova a R$9,70 e Montenegro a R$6,20). E esses valores serão reajustados ano a ano, com uma renegociação de valores a cada 5 anos! Assim como no modelo antigo de 20 anos atrás, possivelmente teremos os pedágios mais caros do Brasil! E isso que já pagamos alguns dos mais altos impostos do mundo!

Soledade, nossa amada e estimada cidade, ficará sitiada, cercada, estrangulada por dois pedágios distantes um do outro somente 34km. As centenas de estudantes que estudam em Passo Fundo e Carazinho pagarão pedágio. Todos os enfermos que buscam atendimento médico também. Aqueles que forem a Porto Alegre pagarão mais de 30 reais num veículo comum, o valor para ônibus e caminhões, todos sabem, serão muito mais elevados.

Os turistas pensarão duas vezes antes de visitar a Capital Nacional das Pedras Preciosas. Nossas exportações terão um custo maior. Os alimentos que chegam aqui, os combustíveis, os produtos, tudo terá um custo maior, agregado devido à cobrança nas estradas.

Nossa Região do Alto da Serra do Botucaraí, nosso Corede, ficará destroçado. Com os municípios separados, tudo tende a uma desfragmentação da região, com Soledade deixada sozinha em seu cerco de pedágios. É uma perda política e, por consequência, econômica e social incalculável. Nossa região já tem o 2º pior índice de Desenvolvimento Humano do estado, e agora, com mais essa tributação nas estradas, o destino é piorar.

Então tudo está perdido? Ainda não, meu irmão. O projeto ainda não foi aprovado, o edital ainda não foi lançado, pois as audiências públicas são obrigatórias, e isso é o que impediu o governo de realizar este plano malévolo na calada da noite. Apesar da quase inexistente divulgação sobre essa Audiência Pública em Porto Alegre, houve uma forte mobilização por parte dos vereadores do Vale do Taquari, que lotaram o auditório e fizeram fortes discursos contra essa proposta, exigindo no mínimo uma audiência pública em Lajeado. O vice-prefeito de Carazinho também requisitou uma audiência pública em seu município. Nós, do Movimento Contra Pedágios na BR 386, apoiamos essas iniciativas, pois as regiões que mais sofrerão os impactos do pedágio devem ser ouvidas, e as tarifas devem ser reduzidas, as obras de duplicação devem iniciar imediatamente junto à cobrança e o tempo de concessão de 30 anos deve ser diminuído. Essas são contrapropostas bastante viáveis e realistas, embora defendamos desde o princípio que não haja pedágio algum em nossas estradas.

A sociedade precisa se unir e os cidadãos precisam assumir seus postos como senhores de seus destinos e agentes ativos na construção e aperfeiçoamento da sociedade. Não podemos deixar as decisões nas mãos dos políticos, sabemos do que eles são capazes e como vacilam diante de ofertas sedutoras. O povo, unido, jamais será vencido. Esta máxima vale desde tempos imemoráveis e seguirá valendo enquanto existir vida em sociedade.