Passado Perfeito


Passado Perfeito dá início à tetralogia “Estações Havana”, obra do romancista, ensaísta e jornalista cubano Leonardo Padura, que já foi traduzida para mais de 15 países e venceu prêmios internacionais, como o Dashiell Hammet, de melhor romance em língua espanhola, e o Café Gijón, além de ter sido adaptada para o cinema e a televisão.

“As portas do elevador se abriram com a lentidão de uma cortina de teatro barato, e só então o tenente Mario Conde percebeu que aquela cena não incluía óculos escuros. A dor de Cabeça quase cedera, mas a imagem familiar de Rafael Morín remexia lembranças que ele imaginava perdidas nos recantos mais obsoletos da memória. Conde gostava de lembrar, era um lembrador do cacete, dizia o Magro, mas ele teria preferido outro motivo para rememorações. Avançou pelo corredor com mais vontade de dormir do que de trabalhar e, quando chegou ao escritório do Velho, ajeitou a pistola que estava quase escapulindo da cintura.”

Padura, que esteve recentemente em Porto Alegre, falando sobre os efeitos da “insularidade” na cultura e literatura cubanas, acredita que o gênero policial permite abordar os maiores problemas da sociedade, como corrupção, repressão, erosão ideológica e pobreza. Pelo conjunto de sua obra, recebeu o Prêmio Princesa das Astúrias das Letras e o Prêmio Nacional de Literatura de Cuba.

Havana, 1989: Passado Perfeito nos apresenta o tenente da polícia Mario Conde, que tem seu recesso de ano-novo –  e uma ressaca homérica –  interrompidos por uma chamada telefônica urgente da Central de Polícia: deve se apresentar imediatamente para investigar o improvável desaparecimento de um executivo de alto escalão do Governo Cubano. A trama complica quando este se dá conta de que o desaparecido é um ex-colega de escola e casado com aquela que foi (e talvez ainda seja) sua grande paixão.

Conde pegou a pasta, sem abri-la. Pressentia que aquilo podia ser uma réplica da caixa terrível de Pandora e preferiria não ser ele a libertar os demônios do passado.

– Por que você me escolheu, justo eu, para este caso? – perguntou então.

O Velho tornou chupar o charuto. Parecia esperançoso de uma imprevisível melhora, ia se formando uma cinza pálida, regular, saudável, e ele aspirava suave, a medida certa em cada baforada para não encabritar o fogo nem maltratar o nervo sensível do charuto.

– Não vou dizer, como já disse tempos atrás, que escolhi você porque é o melhor, ou porque tem uma sorte do caralho e contigo as coisas dão certo. Nem pensar, tudo isso já era ok? E se eu disser que escolhi você porque me deu na telha, ou porque prefiro ver você por aqui e não em casa sonhado com romances que nunca vai escrever, ou porque esse é um casinho de merda que qualquer um resolve? Escolha a ideia que preferir e marque um xis.

Interessante notar a descrição da sociedade cubana no período pós-revolucionário e no limiar do desmoronamento da União Soviética e da queda do muro de Berlim. Assim, temos apresentado um país onde estar à caminho da universidade é algo natural e inexorável, permeado por um panorama em que revelam-se diferentes grupos e níveis sociais, advindos de bairros distintos entre si, assim como seus habitantes, descrevendo códigos e gestos que indicam a origem de cada grupo.

Posteriormente, ao desenrolar da trama, a corrupção das instituições é mostrada através das descobertas a respeito do desaparecido, demonstrando traços universais da natureza humana, independente das justificativas ideológicas contidas no imaginário da sociedade.

Conde olhou, com uma saudade que já lhe parecia bastante conhecida, a Calzada do bairro, os latões de lixo em erupção, as embalagens de pizza para viagem arrastadas pelo vento, a pracinha onde aprendeu a jogar futebol transformada em depósito da sucata produzida pela oficina mecânica da esquina. Onde se aprende a jogar bola agora?

Recentemente, em decorrência do imenso sucesso desse noir cubano, a tetralogia de Mario Conde virou série de televisão, produzida pela NETFLIX e filmada em Cuba pelo canal espanhol TVE, traz Jorge Perrugorría no papel de Mario Conde, direção de Felix Viscarret e roteiro de Leonardo Padura em parceria com sua esposa, Lucia López Coll.

Passado Perfeito foi o primeiro livro de Padura que tive contato, e se apresentou como uma grata surpresa, agradável de ler, o texto conta com muita fluidez e passagens impagáveis, que vão desde descrições da culinária local, beisebol, saudosismo pela rinha de galos e reflexões acerca das escolhas que a vida apresenta, suas consequências e o que aconteceria “se”.

Seu avô Rufino, criador, treinador e apostador voraz de galos de briga, levou-o a todas as rinhas e terreiros da região e lhe ensinou a arte de preparar um galo para não perder: primeiro, treinando-o com o mais legal e esportivo dos cuidados dedicados a um boxeador; depois, untando-o com óleo na hora de pisar na serragem da arena para deixa-lo intangível pelo adversário. A filosofia do vovô Rufino – nunca jogar se não tiver a certeza de ganhar – proporcionou a satisfação de ver que aquele galo, que conhecera quando ainda era um ovo como outro qualquer, só morreria de velho, após ganhar trinta e dois combates e cobrir um número incontável de galinhas, tão ou mais finas que ele.

Em suma, trama envolvente e ambientada de forma sublime acabam por não apenas recomendar este livro, mas todos os demais (ventos de quaresma, mascaras e paisagem de outono) da série.

  

– Os negócios de muita grana são que nem as mulheres ciumentas: não pode haver motivo para queixas – disse René Macides, e Conde olhou para Manolo, a lição era de graça e ele havia se enganado.

Contato, críticas e sugestões para o email: bruno@zorteaedallcortivo.com.br


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