Ian McEwan – Enclausurado!


Enclausurado! Este é o novo livro do premiado escritor inglês Ian McEwan, vencedor do Man Booker Prize e do Whitbread Award. Ian esteve recentemente em Porto Alegre para celebrar o lançamento desta obra e palestrar no Fronteiras do Pensamento, falando sobre seu projeto de literatura realista, traço marcante em todos os seus trabalhos.

“Então aqui estou, de cabeça para baixo, dentro de uma mulher. Braços cruzados pacientemente, esperando, esperando e me perguntando dentro de quem estou, o que me aguarda.”

Enclausurado surpreende desde o início, ao colocar como figura central e narrador do romance nada menos que um feto. Logo na primeira página, nos deparamos com as dúvidas do narrador, a angústia da passagem do tempo com a proximidade do final da gestação numa clara analogia a vida e seu acaso, ou seja, o nascimento encerra o ciclo da gestação assim como a morte o da vida.

“Mas eis a verdade mais limitadora da vida: é sempre aqui, é sempre agora, nunca lá e depois”

A ideia é por demais insólita e tinha tudo para dar errado, dada a estranheza da proposta. Contudo, ela foi posta em prática por um autor experimentado e dotado de extrema habilidade para condução da história. De dentro do útero, o narrador aprende as coisas da vida ouvindo programas de rádio que falam da política e da situação mundial, além de degustar e emitir opiniões acerca dos vinhos que sua mãe ingere, em que pese a gravidez.

“Meu querido pai,
Antes de você morrer, gostaria de lhe dizer uma coisa. Não temos muito tempo. Bem menos do que você imagina, por isso me desculpe eu ir direito ao assunto.”

É nesta condição que ele fica sabendo dos planos de Trudy, a mãe, para matar o pai em conluio com o amante que é irmão do pai, ou seja, seu tio.

“Nem me interessa saber se será uma coisa ou outra. O que temo é ficar de fora. Desejo saudável ou mera cobiça, em primeiro lugar quero minha vida, o que me é devido.”

Todos os personagens do livro são detestáveis, com exceção do nosso passivo (ou não tão passivo assim) narrador/observador.

Acredito na vida após o nascimento, embora saiba que é difícil separar a esperança dos fatos. Qualquer coisa mais curta que a eternidade vai servir.”

Nota-se um evidente eco das tragédias de Shakespeare na trama, elevando este livro de McEwan é uma pequena joia do humor e da narrativa fantástica.

“Deveríamos ser muito próximos, ela e eu, mais próximos que dois amantes. Há alguma coisa que deveríamos estar sussurrando um para o outro.

Quem sabe adeus.”

É em suma um livro diferente, surpreendente, curto e de leitura fácil.

Recomendo tremendamente.