valter hugo mãe – o remorso de baltazar serapião

o livro é “o remorso de baltazar serapião”, de valter hugo mãe, obra vencedora do prêmio literário josé saramago no ano de 2007, distinção concedida a uma obra literária no domínio da ficção, romance ou novela, escrita em língua portuguesa, por um escritor com idade não superior a 35 anos, cuja primeira edição tenha sido publicada em qualquer país da lusofonia, excluindo obras póstumas.

tão importante quanto comentar a obra, será fazer referência a seu autor, cujo privilégio eu tive, de no ano de 2015 “conhecer”, quando da realização de sua palestra no fronteiras do pensamento em porto alegre.

realmente, não me considero um sujeito impressionável, mas assistir valter hugo mãe interagir com a plateia foi para mim algo único. ele tem a rara qualidade, de despertar nos interlocutores o desejo de proximidade, a real intenção de ser amigo daquela cara.

isso se confirmou, quando da sessão de autógrafos que se seguiu à palestra, pelo tratamento que ele dá aos leitores. imagino que eu tenha ficado mais de uma hora na fila, lendo, e ao  me deparar com ele, ao invés de simplesmente receber a ordem de me aproximar com o livro aberto na página do autógrafo, receber um garrancho e ser dispensado, eu fui premiado com um sorriso, um cumprimento carregado de sotaque portuguexx, e, não sei se sorte ou azar, um pedido de desculpas em virtude da caneta ter falhado exatamente na minha vez. tenho o autógrafo dele em “o apocalipse dos trabalhadores”, mas essa é outra estória.

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devem ter percebido, a ausência de letras maiúsculas, de forma proposital,  esta é uma homenagem a forma de escrita do autor, algo que salta aos olhos de imediato. é um estilo que pretende reproduzir ou resgatar uma carga de oralidade na transmissão da estória. nas palavras do autor, o uso de maiúsculas é uma simplificação.

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dai, temos que realmente, as obras de valter hugo mãe, não são fáceis, não são obras de leitura superficial e desinteressada, há que se enfrentá-las com respeito. mas assim o fazendo, o leitor é premiado de forma rara. suas obras (digo porque já li outras 04), tem a capacidade de despertar sentimentos variados, e a meu juízo, suas obras tem uma constante: a busca pela humanização, a busca da empatia que nos une como seres humanos.

“naquele tempo o meu martírio começou. empoleirado nas bermas da casa, agarrado às janelas a desesperar de incerteza, fosse a ermesinda meter-se debaixo de dom afonso e que faria eu corno, apaixonado, morto de loucura por ela”.

o remorso de baltazar serapião, foi classificado por josé saramago, como um tsumani literário. O enredo decorre na Idade Média, um tempo de pobreza e profundas desigualdades sociais; nosso herói é o dono do remorso, baltazar serapião, da família sarga, apelido originado do nome da vaca da família, ela própria figura importante no enredo.

“a teresa diaba já não era filha de ninguém. por muito tempo que se defendeu de bicho e instinto, a diaba era só bicho e instinto, como coisa que veio do mato para se amigar da vida das pessoas. era assim como um animal selvagem com muita vontade de ser doméstico”.

baltazar é fruto de uma sociedade senhorial, extremamente patriarcal e misógina.

o tratamento degradante dado as mulheres na obra, longe de ser machista, pretende causar o efeito contrário, uma reflexão acerca da opressão ainda existente.

ou seja, as mulheres são figuras centrais na obra, sua mãe, sua amada ermesinda, tereza diaba, a mulher queimada e d. catarina. no meio de tudo há a mulher e o amor; mas a figura feminina que desempenha o sagrado papel de servir o homem que serve o senhor.

“foi como ficou, nada desenfreada, apenas mais confusa no arrumo do corpo, a minha pobre mulher mal educada e não preparada para o casamento. o anjo mais belo que já vira, por sorte tão incrível, minha esposa, amor meu”.

o primeiro personagem impactante é a sarga, a vaca de estimação da família, que se mostra ao longo do romance um dos personagens mais importantes da trama.

essa combinação constrói uma história muito, mas muito pesada. demorei muito além do que o normal para ler o livro em razão da carga emocional que cada página carrega. o autor utiliza uma técnica já vista em dom casmurro de machado de assis, em que para demonstrar o ciúme doentio de baltazar sobre sua ermesinda, nada é confirmado por ninguém porque, como a história é narrada pelo próprio personagem, não temos a visão de outros personagens sobre o fato.

“olhei para o rosto da minha ermesinda e pensei, só da vergonha de aqui estar, já te mato de grado e obrigação”.

o desenvolvimento da narrativa é impactante e de  tirar o fôlego, mistura-se magia e realidade, violência e amor e culmina em um final triste e sublime, premiando um leitor que foi exposto a reflexão sobre a condição da mulher na sociedade, ainda hoje vista como inferior.

comprova que o remorso de baltazar serapião, deve ser o remorso, a esperança e a redenção de todos nós.