Paddy Clarke Ha Ha Ha


Paddy Clarke Ha Ha Ha é um livro fantástico, uma memorável história de meninos. Escrito pelo irlandês Roddy Doyle, lhe rendeu em 1993 o Booker Prize de forma plenamente justificada. Confesso não conhecia o autor e sua obra, mas acabei me surpreendendo positivamente com esta que considero uma das melhores narrativas de infância a que tive acesso.

“A gente estava descendo a nossa rua. Kevin parou e bateu no portão com o galho. Era o portão da Sra. Quigley; ela sempre espiava pela janela, mas nunca fazia nada”.

O livro narra a história de Patrick (Paddy) Clarke, um menino de aproximadamente 10 anos, na cidade de Dublin na década de 60. A narrativa se desenvolve em primeira pessoa e de forma não linear, ou seja, acompanhamos o menino contando suas peripécias, avançando e retrocedendo no tempo, sem que haja divisão de capítulos.

“Não tivemos nada a ver com o que aconteceu com o celeiro. Não fomos nós que botamos fogo nele”.

E é justamente essa forma de narrativa que captura o leitor desde as primeiras páginas ao nos apresentar o mundo de Patrick, seus amigos e sua família, com passagens ora realmente hilárias e cenas angustiantes e tocantes. Cenas estas que se tornam cada vez mais frequentes com o correr das páginas e o desenvolvimento físico e psicológico dos personagens.

“Matei um rato com um taco de hurling. Foi pura sorte. Só arremessei o taco. Não sabia que o rato ia passar na minha frente naquele momento. Não fiz de propósito. Mas foi sensacional, o taco acertou o rato com força e o levantou no ar. Perfeito. Dei um grito de vitória”.

Patrick é um menino comum, como tantos outros, cercado de cenários e situações corriqueiras, portanto, é forma como a história é contada que nos evoca a magia e a reminiscência das relações entre garotos e destes com os adultos. Impossível não ficar nostálgico com as descrições das brincadeiras e até mesmo das maldades perpetradas pelas crianças. Da mesma forma, causa comoção a forma como as atitudes dos adultos podem refletir negativamente no psicológico dos filhos, centrada nas cada vez mais frequentes brigas entre seus pais, e sua frágil tentativa de intervenção.

Confúcio disse: “Vá para a cama com o cu coçando e acordará com o dedo fedendo”.

Não existem acontecimentos grandiosos na trama, e é justamente esse fato que aproxima a narração do leitor, são situações cotidianas e que frequentemente vivenciamos em nossa própria infância.

“Não cheguei a ter a chance de fugir de casa. Era tarde. Ele foi embora antes. O jeito como fechou a porta, sem bater. Alguma coisa em disse. Eu sabia: ele não ia voltar”.

Sempre achei que a vida é muito curta para perdemos tempo com livros ruins, pois bem, com Paddy Clarke, você ganha cada segundo.

Escritor irlandês Roddy Doyle
Escritor irlandês Roddy Doyle

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